cover
Tocando Agora:

Mar sujo? Entenda por que a cor da água do mar muda em Santos

Mar sujo? Entenda por que a cor da água muda em Santos A água do mar de Santos, no litoral de São Paulo, costuma chamar atenção por sua tonalidade mais esc...

Mar sujo? Entenda por que a cor da água do mar muda em Santos
Mar sujo? Entenda por que a cor da água do mar muda em Santos (Foto: Reprodução)

Mar sujo? Entenda por que a cor da água muda em Santos A água do mar de Santos, no litoral de São Paulo, costuma chamar atenção por sua tonalidade mais escura, característica que muitas vezes é associada à poluição. A cor, no entanto, é influenciada por uma combinação de fatores naturais e ambientais que fazem parte da própria dinâmica da região. A cidade está inserida em um sistema estuarino, onde rios, canais, manguezais e o mar estão conectados. Essa dinâmica favorece a chegada de sedimentos e matéria orgânica à região costeira e interfere na aparência da água. 🏝️ Um sistema estuarino é um ambiente costeiro onde a água doce de um rio se encontra e se mistura com a água salgada do mar. ✅Clique aqui para seguir o canal do g1 Santos no WhatsApp. A localização da cidade, próxima a rios, canais e manguezais, tem papel importante nesse processo e ajuda a explicar a coloração da água Carlos Nogueira/Acervo A Tribuna Ao g1, a cientista ambiental Beatriz Fernandes explicou que a coloração não é provocada por um único elemento, mas pela combinação de fatores, como a influência do estuário, dos rios, da matéria orgânica e da composição mineral da região. “Isso não significa que Santos não tenha problema com a poluição, somente que a coloração da água não é explicada por isso, e sim por fatores ambientais”, explica. Estuário e manguezais Beatriz explica que a posição geográfica do município faz com que sedimentos e matéria orgânica sejam transportados em direção à costa. Rios da região carregam folhas em decomposição, areia, argila e outros materiais que podem contribuir para a tonalidade mais escura. Os manguezais também participam desse processo. A decomposição da matéria orgânica presente nesses ambientes libera pigmentos naturais que podem alterar a aparência da água. Além disso, a geologia local reforça essa característica. A erosão natural das rochas e da cobertura da Serra do Mar libera sedimentos minerais escuros, que descem a encosta e se depositam tanto na água quanto na areia, intensificando a coloração acinzentada típica de Santos. Decomposição da matéria orgânica presente nos manguezais libera pigmentos naturais que podem alterar a aparência da água Carlos Nogueira/Acervo A Tribuna Por que a cor muda? A tonalidade do mar não é fixa e varia conforme as condições ambientais ao longo do ano. Fatores como chuvas, frentes frias, marés, ventos e correntes marítimas influenciam a quantidade e a distribuição dos sedimentos e da matéria orgânica presentes na água. “Em períodos longos sem chuva e sem frentes frias, esse aporte diminui, e o mar de Santos pode ficar com uma coloração bem mais clara”, afirmou Beatriz. Dia de sol e calor em Santos Sílvio Luiz/Acervo A Tribuna Essa dinâmica ajuda a diferenciar Santos de praias que costumam apresentar águas mais claras. Em parte do litoral norte, por exemplo, há menor influência de grandes rios e estuários, além de diferenças na formação do fundo marinho e na conservação da vegetação próxima à costa. Cor não define balneabilidade A aparência não permite determinar se uma praia está própria ou imprópria para banho. De acordo com a cientista ambiental, a coloração resulta de processos naturais e não está diretamente relacionada à qualidade ambiental. “Um mar escuro pode estar perfeitamente próprio para banho, já que sua cor vem de fatores naturais, e um mar de aparência clara e azulada pode, na verdade, estar contaminado sem que isso seja perceptível visualmente”, afirma Beatriz. A coloração do mar não é um indicador direto da qualidade da água Nirley Sena/Acervo A Tribuna A qualidade da água é verificada por meio de análises laboratoriais realizadas pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), que monitora sete pontos de amostragem em Santos: Ponta da Praia Aparecida Embaré Boqueirão Gonzaga José Menino - Rua Olavo Bilac José Menino - Avenida Frederico Ozanan Em nota ao g1, a Cetesb informou que, historicamente, as águas de Santos apresentam condições predominantemente classificadas como ruins ou péssimas. Desde 2023, porém, os resultados indicam uma melhora gradual, com aumento dos trechos classificados como regulares e redução das condições mais críticas. Como a qualidade é avaliada? Em todo o estado de São Paulo, a Cetesb realiza coletas semanais em 175 pontos. As amostras são analisadas em laboratórios próprios e têm como principal indicador a concentração de enterococos, conforme os critérios estabelecidos pela Resolução Conama nº 274/2000. A classificação considera amostras coletadas ao longo de cinco semanas consecutivas. Quando são identificadas mais de 100 colônias de bactérias a cada 100 mililitros de água, o local recebe a bandeira vermelha e passa a ser considerado impróprio. Bandeira vermelha na Praia do Gonzaga, em Santos (SP) Rogério Soares/AT Segundo a Cetesb, em Santos, essa qualidade microbiológica é frequentemente afetada pela elevada densidade populacional, ocupações irregulares, lançamento de esgoto e poluição difusa transportada pelas chuvas. As características da Baía de Santos também dificultam a dispersão das águas provenientes dos canais e cursos d’água que chegam ao mar. Durante períodos de chuva intensa ou ressacas, a abertura das comportas dos canais de drenagem, necessária para evitar alagamentos, pode alterar temporariamente a qualidade microbiológica da água e, consequentemente, as condições de balneabilidade. Os impactos ambientais A diferença entre a coloração natural da água e a qualidade para banho não significa que o ambiente marinho de Santos esteja livre de impactos. A região sofre pressões relacionadas à urbanização, às atividades portuárias e industriais e à perda de áreas de manguezal provocada por aterros e processos de degradação. Santos sofre pressões relacionadas à urbanização, às atividades portuárias e industriais e à perda de áreas de manguezal Marcelo Justo/Acervo A Tribuna Outro problema é a presença de microplásticos. Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), publicado em 2023, apontou o estuário de Santos como um dos locais com maiores níveis de contaminação por esse tipo de material entre as áreas analisadas em pesquisas internacionais. O trabalho avaliou ostras e mexilhões coletados na região da balsa Santos-Guarujá, na praia do Góes e na ilha das Palmas. Na área da balsa, onde foi identificada a maior concentração, os animais apresentaram média de 12 a 16 partículas de microplástico por grama de tecido. Em um dos mexilhões, foram encontradas mais de 300 partículas por grama. A pesquisa identificou principalmente fibras têxteis, que os pesquisadores apontaram como provavelmente relacionadas ao lançamento de esgoto doméstico. Canais de Santos Carlos Nogueira/Prefeitura de Santos ‼️O que a Cetesb recomenda? Para reduzir os riscos à saúde e contribuir com a preservação das águas costeiras, a Cetesb orienta a população a consultar a classificação de balneabilidade antes de entrar no mar e evitar praias consideradas impróprias. evitar o banho nas primeiras 24 horas após chuvas intensas; não entrar na água de canais, córregos e rios que deságuam nas praias; não ingerir água do mar; descartar corretamente lixo e resíduos.